sábado, 10 de outubro de 2015

“Os vitrais da sala à prova de som”, de Marco Roza, insiste em falar de tortura para deixarmos de ser cúmplices dos torturadores, por omissão ou indiferença

“Nós somos um país racista, tivemos uma abolição tardia. Essa divisão do país é importante, temos que falar disso para superar”, diz o cineasta Maurício Farias, na divulgação do seu filme “Mister Brau” em entrevista a Lígia Mesquita, na Folha.
Na mesma edição, encontramos o texto “239 volta para casa”, de Demétrio Magnoli, no qual lemos: “A história de Shaker Aamer é uma impugnação do argumento clássico de defesa da tortura”.
O articulista argumenta que: “A justificação "moral" da tortura assenta no dilema da bomba-relógio. Se é capturado um terrorista que guarda informação sobre um atentado iminente, não seria a tortura uma ferramenta aceitável, até compulsória, para salvar as vidas de incontáveis inocentes? O problema insolúvel do argumento é que ele supõe um cenário ideal, no qual sabe-se de antemão que o prisioneiro é um terrorista e, ainda, que dispõe de um segredo específico. A história de Aamer, entre tantas outras, revela que tal cenário é uma construção puramente teórica, destinada a flexibilizar um interdito moral. Na neblina da vida real, seria preciso torturar pencas de inocentes e terroristas ignorantes até chegar, casualmente, ao detentor da informação crucial.”
O que me leva a perguntar se não seria interessante resgatar os torturados na sua humanidade, para constranger os torturadores, como tenta Maurício Farias fazer com os racistas brasileiros no seu filme “Mister Brau”?
Tanto quanto o racismo, a tortura está ativíssima. Nas prisões, nos lares, nos relacionamentos. Tendo como suas vítimas preferenciais os negros e pobres nas prisões; as mulheres nos relacionamentos com seus parceiros, os humilhados e ofendidos diante dos que se julgam donos de suas vidas, seus corpos e seus destinos.
Resgatar a integridade humana dos torturados acredita Marco Roza é interromper o discurso da manutenção dos poderes, em quaisquer níveis, ao custo da dilaceração impune de músculos e nervos.
Como se fosse possível, como acreditam os torturadores e seus cúmplices ao se manterem em silencio ou indiferentes, moldar vontades, eliminar liberdades e interromper a caminhada da humanidade rumo a estágios mais civilizados.
Para resgatar a humanidade dos torturados, dos humilhados e ofendidos é que Marco Roza elaborou “Os vitrais da sala à prova de som”.

Que é um assunto que fará, necessariamente, parte de nossa agenda à medida que nos inserimos, humanos, nos destinos que a Humanidade nos impõe e deixarmos de ser cúmplices dos torturadores, por omissão ou indiferença.

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